Valther Maestro

A população mundial

As perspectivas de elevação populacional do mundo sempre geraram polemicas (Por quê? Problemas estão relacionados ao número de pessoas – que se tivéssemos menos pessoas, os problemas seriam menores). Por causa disso surgiram várias teorias a respeito dos problemas que um crescimento populacional incontrolável poderia criar na Terra.
Uma das questões mais discutidas fundamenta-se na teoria de Thomas Robert Malthus (sec. XVIII), que defendia idéias sobre “leis naturais de crescimento populacional”. Segundo essas leis, o crescimento da população acontecia num ritmo geométrico(1,2,4,8,16,32...), enquanto o da produção de alimentos se dava em ritmo aritmético (1,2,3,4,5,6,7...). De acordo com Malthus, a forma mais adequada de enfrentar esse descompasso seria a adoção de políticas de controle da natalidade. A teoria defendida enfocava principalmente famílias das classes mais pobres da sociedade européia, pois eram essas que tinham mais filhos. Malthus classificou as ações que poderiam diminuir o crescimento populacional em três tipos:

  1. As epidemias, as doenças, as guerras e a fome;
  2. O uso de métodos contraceptivos (Malthus, apesar de protestante, defendia os métodos anticoncepcionais em nome do equilíbrio populacional);
  3. A sujeição moral, que preconizava que o homem deveria casar somente quando tivesse recursos financeiros.

 

Apesar de Malthus saber que a relação entre a falta de alimentos e o crescimento populacional não é diretamente proporcional, foi essa a forma que ele encontrou para sensibilizar o Estado sobre o que poderia acontecer caso a população aumentasse.
Essa relação entre número de habitantes e quantidade de alimentos ainda hoje é utilizada para justificar o controle da natalidade, que, muitas vezes, aparece camuflado pelo termo “planejamento familiar”. Os argumentos fundamentam-se no fato de que a quantidade de terra para o plantio é limitada e que a produção agrícola não poderia acompanhar o crescimento populacional justamente por causa dessa limitação. Até hoje várias organizações governamentais e fundações que se preocupam em difundir o planejamento familiar fazem recomendações aos governos dos países em desenvolvimento ou subdesenvolvidos para controlar a taxa de natalidade.
Observe agora alguns argumentos que se contrapõem às ideias propostas por Malthus:

- O crescimento populacional está relacionado a aspectos políticos, sociais, culturais e econômicos referentes às características de cada país.
- No momento histórico em que a teoria foi elaborada, o crescimento populacional era fruto da Revolução Industrial. As relações de trabalho estavam se alterando tanto na cidade quanto no campo, e a introdução de novas tecnologias modificava a vida da população. Naquela época, era conveniente ter vários filhos para que eles logo entrassem no mercado de trabalho. Os filhos eram, portanto, um investimento, já que a mão-de-obra era utilizada nas indústrias têxteis e minas de carvão.
- Houve um processo de desenvolvimento e modernização do trabalho no campo, o que aumentou a produtividade agrícola, como, atualmente, o desenvolvimento de sementes resistentes a pragas.

Durante o século XX, a temática do crescimento populacional foi discutida de várias formas. Ainda hoje, algumas teorias apontam o subdesenvolvimento como decorrência do excessivo número de habitantes, da agricultura manual e da baixa produtividade. Essas teorias foram denominadas neomalthusianas. Para os neomalthusianos, se houvesse controle de natalidade nos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento, o problema da fome acabaria. Além disso, como o aumento da população implica investimentos sociais – educação, saúde e habitação –, seriam destinados menos recursos para o setor produtivo. Com base nesse raciocínio, muitos governos incentivam o controle da natalidade, reafirmando a visão de Malthus.

Karl Marx e o contraposto a Malthus

Karl Marx foi um economista que, fundamentado no materialismo histórico, levantou diversos pontos contrários à teoria de Malthus. Ele afirmava que a fome, a carência social e o crescimento populacional são causados pela má distribuição de renda e pelas diferenças de classes sociais. Para Marx, as condições de vida do trabalhador estavam diretamente relacionadas aos meios de subsistência.
Segundo Marx, a superpopulação contribuiria para o fortalecimento do sistema capitalista, cuja principal fonte é o lucro daqueles que detêm os meios de produção, e não as necessidades da maioria da população. O aumento populacional favoreceria a disponibilidade de mão-de-obra, contribuindo para uma maior rotatividade de trabalhadores nas fábricas e levando ao rebaixamento salarial e consequente aumento dos lucros. O excedente populacional, portanto, resultava no aumento do nível de desemprego, em um grande número de jovens com poucas perspectivas de conseguir trabalho e no crescimento da miséria e da pobreza, enquanto uma minoria acumulava capital. Para os seguidores da teoria de Marx, o Estado é o responsável pela melhoria das condições de vida da população.
A partir do século XX, iniciou-se uma lenta diminuição das taxas de crescimento populacional nos países industrializados em consequência da queda das taxas de natalidade. A mudança do padrão de crescimento da população mundial é decorrente do aumento da renda média da população, do acesso a métodos contraceptivos e da mudança do papel da mulher na sociedade.
Apesar de ter havido mudanças na dinâmica populacional, principalmente nos países industrializados, o número de habitantes no século XX chegou a aproximadamente 6 bilhões, e a estimativa é de que chegue, em 2025, a mais de 8,5 bilhões de habitantes.

O consumo de alimentos

Independentemente do aumento da população mundial e da alimentação das áreas agrícolas destinadas ao cultivo de alimentos, um dos problemas mais graves do mundo contemporâneo é a má distribuição da comida – 80% de tudo o que é produzido no mundo é consumido por apenas 20% da população mundial.
Nos últimos 20 anos, a produção mundial de alimentos cresceu mais de 3%, enquanto o aumento demográfico situa-se próximo dos 2%. Portanto, é falsa a ideia que preconiza o controle do crescimento demográfico para vencer a fome.
A geografia da fome é um dos indicadores para separar os países ricos dos pobres. Parte da população dos países subdesenvolvidos e em desenvolvimento ainda passa fome, apesar do aumento da produção.
Se a população do chamado mundo subdesenvolvido consumisse os alimentos produzidos em seu território, não haveria desnutrição nem morte por fome nesses países. As organizações governamentais, para saldar dívidas contraídas junto aos bancos internacionais, atrelam o pagamento dos empréstimos aos produtos agrícolas que serão exportados. No momento de decidir sobre o que produzir, o quanto produzir e para quem vender, não são consideradas as necessidades alimentares da população local.
Muito se fala também sobre a falta de terras para se produzirem os alimentos necessários para toda a população do planeta. Analise os esquemas a seguir.
Calcula-se que existe menos de 1,5 bilhão de hectares de terras aptas para a agricultura no mundo. Apenas menos da metade dessa área, 700 milhões de hectares, é utilizada para a produção de alimentos. Mesmo assim, tudo o que é colhido no mundo seria suficiente para alimentar mais de sete bilhões de pessoas.
Apesar de a tecnologia e a modernização da agricultura proporcionarem aumento na produção, as promessas de acabar com a fome estão longe de ser cumpridas. Isso porque, atualmente, regiões de terras férteis vêm sendo transformadas em áreas urbanas e também porque parte da produção agrícola de alimentos é usada como ração para animais.
A produção de cereais para exportação dos países do chamado mundo subdesenvolvido aumentou muito nos últimos anos. Já em 1976, a quantidade de grãos consumida pelos países considerados desenvolvidos para alimentar animais superava os 251 milhões de toneladas – mais de seis vezes a quantidade calculada pela ONU como necessária para eliminar a fome no mundo.
Nos últimos 30 anos, a combinação de mecanismos políticos e econômicos sustentados pelo modelo de desenvolvimento dos países ricos contribuiu para que a fome se tornasse mais aguda. A modernização da agricultura, em vez de pôr fim à fome, encareceu a produção de alimentos.
O número de habitantes não é o problema principal do planeta. Quando as sociedades alcançaram níveis de vida mais elevados, a opção pelo controle do número de filhos passa a ser uma decorrência natural, sem que haja necessidade de intervenções oficiais. A questão fundamental a ser resolvida é a manutenção da vida, porém vida com dignidade. Para que isso ocorra, é necessário que se adotem, em nível global, outras maneiras de pensar, produzir e consumir.

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