Valther Maestro

Entrevista para a jornalista Shamila Carpeggiani da Agência Positiva - novembro/2012

Tema: Valther aborda nessa entrevista o mundo do trabalho, dando ênfase na escolha da profissão e o profissional do futuro.

Segue a entrevista na íntegra:

A educação contemporânea propõe um ensino baseado em uma educação libertadora, tendo como perspectiva a transformação da sociedade em que vivemos. O cenário educativo das últimas décadas demanda uma inegável inquietação pela busca de respostas sobre as dificuldades de ensinar e aprender, e formar os profissionais do presente e do futuro. (Re)significar o ensino tem sido um desafio constante para aqueles que acreditam que a educação  deve ser composta de momentos de desenvolvimento das potencialidades humanas, pela busca da leitura, da escrita e da resolução de problemas.      É fato que a escola é um espaço de aprendizagem, vivencia, convivência, ação política e social, e por isso deve estar atenta aos problemas que afligem a comunidade educativa, possibilitando uma intervenção ativa nas questões sociais e ambientais.

“Se aprendi a conhecer e respeitar meu mundo, seja este o campo, a montanha, a cidade, o bosque ou o mar e não a negá-lo, destruí-lo, aprendi a refletir na aceitação e respeito por mim mesmo, posso aprender quaisquer fazeres.” (Maturana)


O tempo da escolha da profissão é estressante para o estudante e, consequentemente, para a família?
A escolha da profissão não deveria causar estressante nem para o estudante, nem para a família, deveria ser algo natural na vida de um estudante que foi preparado para a vida em sociedade e para p mercado de trabalho. Estudar no século XXI é ser preparado para um mundo em constante processo de mudança, que possibilita ao estudante o contato com varias possibilidades, ou seja, garantir que no processo de ensino-aprendizagem que se materializou durante o ensino fundamental e o ensino médio tenha sido possível a  consolidação  e  o  aprofundamento dos conhecimentos adquiridos na vida escolar e a  preparação para o trabalho e a cidadania, para continuar aprendendo, de modo a ser capaz de se adaptar com flexibilidade a novas condições de ocupação ou aperfeiçoamento.

O que fazer para se escolher a profissão correta?
O que seria escolher a profissão correta? A que está na moda? A que possibilita mais recursos financeiros? A que garante mais status? No mundo atual existem inúmeras possibilidades de ação profissional, as universidades ainda não estão preparadas para atender a todas as possibilidades profissionais que hoje existem no mercado de trabalho e nos próximos 10 anos inúmeras profissões serão criadas, o que seria então correto fazer para escolher a profissão correta? Na minha opinião o estudante deve obter no ensino fundamental e médio uma formação sólida, baseada em valores humanos sólidos, amplamente ligada ao mundo da arte e da cultura e com inúmeras vivencias, experimentações socioambientais, ou seja, transformar o estudante em protagonista da sua formação, garantir ao estudante a possibilidade de vivenciar ações, projetos e contextos culturais e profissionais.

Como saber qual a profissão tem o perfil do estudante?
Durante o final do século passado muitos estudantes foram submetidos ao chamados testes vocacionais, eles possibilitavam de uma maneira geral uma suposta direção a área onde o estudante teoricamente teria maior aptidão. No mundo atual, o contanto com o mundo do trabalho e os seus desdobramentos deve ser um processo continuo, não deve ficar restrito apenas a um teste ou a um conjunto de palestras. A escola atual e a família precisam romper com seus próprios muros e possibilitar ao estudante o contato com as inúmeras ações profissionais existentes no mercado de trabalho. As trocas e as vivencias não imprescindíveis, como saber se um estudante possui perfil para ser um vendedor, advogado, médico, urbanista, designer ou músico para jogos de game sem antes ter experimentado? Sem antes ter feito um “estagio” vivencial. A escola e a família deveriam pensar em um outro modelo de formação onde os conteúdos fossem substituídos por vivencias, onde as práticas do cotidiano tivessem um valor maior do que a nota obtida em um conjunto de exercícios.

É realmente importante fazer o que se gosta?
Sem dúvida... o mais importante na sua pergunta é o FAZER, para saber do que se gosta. Como eu descubro se gosto de cozinhar? Cozinhando, observando o resultado obtido, percebendo o processo que foi executado para se chegar ao produto final. Quantas escolas possuem um motor de automóvel para ser desmontado para se descobrir se eu gostaria de ser mecânico ou engenheiro? Quantas escolas possibilitam que os estudantes organizem os eventos para saberem se eles gostam de trabalhar com eventos? Quantos escolas possibilitam que o estudante faça a revista, o jornal e o site da escola para descobrir se gostariam de trabalhar com isso? Ou seja, o FAZER deveria ser o ponto de partida da escola e da escolha. Eu acredito que o ensino fundamental é a base da formação e o ensino médio é o momento da ampliação, da consolidação e das vivencias, com certeza, se isso fosse colocado em prática teríamos melhores escolhas e melhores escolas.

Como os pais devem ajudar?
De varias maneiras, principalmente participando da vida escolar dos filhos não cobrando somente as notas ou os resultados finais. Uma outra forma da participação dos pais e a não transferência dos seus sonhos ou frustrações para os seus filhos, ou seja, não queria que seu filho seja o que você não foi, seja um exemplo para ele. Atualmente um grande numero de jovens não querem trabalhar, pois acreditam que trabalhar é algo extremamente ruim, pois visualizam seus pais insatisfeitos com o trabalho que realizam, chegam em casa reclamando de todos os processos, do chefe, da empresa, desejando apenas que o próximo feriado chegue mais rápido. Possibilitar vivencias, experimentações, garantir o contato com o mundo do trabalho de formas diferentes, apresentar o fascinante mundo que temos sem medo de “perder” o filho para o mundo. Quantos pais levaram seus filhos para São Paulo, metrópole global do mundo da prestação de serviços, para que eles pudessem ter contato com o mundo profissional? Preparar o filho para o mundo do trabalho é mais do que fazer turismo em lugares bonitos.

Os professores devem ajudar?
Lógico. Acredito que esse seria uma dar principais ações do ensino médio. Os professores deveriam ser os profissionais que geram as dúvidas e possibilitam que os estudantes busquem as respostas, transformando a informação em conhecimento, para tanto, tais respostas deveriam ser materializadas na forma de projetos, ações e vivencias e não simplesmente como algo escrito que esteja certo ou errado.

É importante diferenciar profissão de carreira?
A carreira é um profissional é construída no processo da vida desse profissional. Todos os profissionais possuem carreiras, algumas são invejáveis, estimulantes... entretanto, outras simplesmente são, pois não ocorreu entrega, não ocorreu envolvimento, simplesmente se cumpriu aquilo que deveria ser cumprido. Existem médicos e médicos, alguns não chegam “perto” dos seus pacientes, enquanto outros se entregam a projetos como o médicos sem fronteiras; existem enfermeiros que possuem uma melhor atuação do que alguns médicos. O problema é a entrega, e só se entrega que é apaixonado pelo que faz, pelos resultados obtidos pelo que se fez... existem pessoas que planejam pontes, existem pessoas que são pontes.

Quais os profissionais que podem me auxiliar?
A vida profissional deve ser observada por todos os ângulos, em todos os aspectos. Em uma escola que visitei recentemente estava acontecendo uma “feira de profissões”, vários médicos, engenheiros, advogados, nutricionistas, jornalistas, publicitários dando palestras para os estudantes, varias universidades com seus espaços organizados divulgando seus cursos, tentando conseguir mais matriculas para o próximo ano. Visitando a tal “feira” de profissões e vendo as palestras, perguntei para a coordenadora da escola onde estava a palestra como jardineiro da escola, com o eletricista, com a telefonista, com o chefe de manutenção, com o coordenador de segurança? Logicamente que elas não existiam, porque só queremos preparar nossos estudantes e os nossos filhos para as grandes profissões, para aquelas de destaque. Mas no mundo é bem diferente do mundo que fazemos nas escola e do mundo que sonhamos para os nossos filhos: “ meu filho nunca seria jardineiro, seria paisagista”; meu filho não seria confeiteiro, ele seria cookie-designer.

Que dicas são importantes para o momento do vestibular?
A escolha da melhor faculdade...sempre a melhor. O queria a melhor faculdade? Aquela que realmente possui ensino, pesquisa e extensão. Aquela que possui professores doutores, mestres e que atuam além dos muros da sala de aula. A escolha deve ser antes da inscrição. Ir até a faculdade, conversar com coordenadores, com estudantes, verificar as publicações e os projetos de extensão.O vestibular é apenas uma prova que em breve vai deixar de existir, esse critério de seleção dos melhores está equivocado. Precisamos garantir que os “desejosos” entre na universidade para serem bons profissionais.

Um estudante está no primeiro semestre da faculdade e percebe que errou na escolha, que atitude tomar?
Deixar a faculdade e ir buscar outra coisa que ele goste de fazer, ou que ele percebe que tem interesse. Infelizmente as famílias e as escolas geram uma grande pressão nos jovens, porque todos precisam prestar vestibular com 17 ou 18 anos? Infelizmente não estamos preparando nossos jovens para fazer as escolhas, pois estamos com um modelo do século XX na cabeça e nas escolas, precisamos de uma mudança de paradigma, quem sabe se as VIVENCIAS fossem praticadas esse “problema” seria menor.

E quando essa descoberta for tardia?
Nunca é tarde para começar, nunca é tarde para se fazer algo que possibilite prazer... essa preocupação acontecia no século XX onde todos já deveriam estar fazendo isso ou aquilo, pois as pessoas em sua vida deveriam ter no máximo 3 ou 4 empregos, uma pessoa que mudassem de trabalho era visto como um “empregado ruim”. Pois bem, no mundo atual, os jovens terão desenvolvido mais de 15 atividades profissionais diferentes até os 40 anos e isso não é sinal de instabilidade, e sim de oportunidade. Estamos vivendo em um novo mundo, com novos valores, com novas possibilidades e disso os jovens sabem muito bem. O que nos temos que possibilitar aos futuros profissionais, nossos filhos e estudantes, é adquiri no processo de suas vidas uma série de valores humanos, sociais, ambientais, éticos e políticos. Que eles possam planejar e argumentar sobre as mudanças que devem ser materializadas no mundo, e que eles possam de forma profissional construí-las.


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